segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Evidências de que a 'Escassez' de Água deve-se à Restrições Monetárias (Eficiência de Mercado - Modelo Financista) e não à Falta de Soluções de Engenharia (Eficiência Técnica). Local ou Globalmente.



Antes de considerarmos o caso específico da 'escassez' de água uma pequena introdução à título de esclarecimento de mecanismos.

Reflexão provocada por:

Diante da crise da água em São Paulo, o coordenador geral da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis faz um apelo às autoridades e aos cidadãos para que assumam as devidas responsabilidades.
ALARME

(13) Tendências Pós-Escassez, Capacidades e Eficiências


A atual civilização industrial mundial é prejudicada pela coexistência de dois sistemas intelectuais universais, que se sobrepõem e são incompatíveis entre si: o conhecimento acumulado dos últimos quatro séculos sobre as propriedades e inter-relações da matéria e da energia; e a cultura monetária associada que evoluiu a partir de costumes de origem pré-histórica. [504]
- M. King Hubbert


Avaliando o Projeto

Examinando a superfície da Terra, hoje, percebe-se que uma camada de rede de comunidades, centros industriais, vias de transporte, áreas de recreação, sistemas agrícolas e afins dominam grande parte da paisagem. Independente de pretender ser, ou não, uma construção completa de um sistema, este resultado, em um determinado ponto no tempo, constitui a aparência de um projeto topográfico. 

No entanto, por outro lado, uma vez que o resultado deste "projeto" hoje é, na verdade, uma junção consequente, principalmente, das dinâmicas empresariais - movimentação do dinheiro em função de auto-interesse pessoal ou de grupo, baseada em mecanismos de tomada de decisão tais como lucro, custo-benefício e a lógica prevalecente das relações de propriedade - também se poderia argumentar que o que se manifestou não é na verdade um "projeto". Pelo contrário, se baseia em um mecanismo que criou a aparência de projeto ex post facto [505], uma vez que o reconhecido resultado estrutural não foi totalmente antecipado antes de sua construção, como um todo. 

Em outras palavras, a ordem técnica que vemos no mundo de hoje é principalmente o resultado de processos financeiros que têm pouca ou nenhuma percepção de resultados estruturais em maior escala. É mais um sistema de representação [N.T.: "sob mandato do mercado"] [506] e, embora existam algumas exceções relativas, como a colocação de estradas, oleodutos e similares por urbanistas financiados que simplesmente precisam ter uma visão física ampla para serem funcionais, e mesmo estas circunstâncias estão muitas vezes se desenvolvendo em torno de reivindicações de propriedade pré-existentes e outras formas de interferência que tendem a reduzir a eficiência do projeto como um todo. 

Esta é uma observação interessante, pois uma vez reconhecido que a nossa sociedade funciona sem uma preconcepção com seu próprio desenho físico, em larga escala, começa-se a perceber o nível enorme de desperdício e ineficiência técnica inerentes a um processo tão míope. 

Para compreender isso melhor, dois pontos merecem consideração:

a) Existência de Soluções Ainda Não Aplicadas

b) Concepção Ampla vs. Concepção Espontânea


a) Existência de Soluções Ainda Não Aplicadas: 

Este primeiro ponto diz respeito à tendência de que muitas inovações na resolução de problemas não são aplicadas dentro da tradição econômica atual. [507] Se métodos ou tecnologias adicionais de melhoria de vida não se incorporaram a um sistema, após uma quantidade de tempo considerável (caso aconteça), depois de uma validação geral, podemos assumir com razão que há ineficiências, senão deficiências, no próprio processo de incorporação e desenvolvimento econômicos. 

Em outras palavras, esse atraso na aplicação, no mundo real, de soluções comprovadas mede a capacidade do sistema socioeconômico de se adaptar adequadamente aos métodos e aplicações melhorados. Se, por algum motivo, a ordem social em questão não é capaz de incorporar esses novos meios que promovem o equilíbrio ecológico, melhoram a saúde pública, resolvem problemas e aumentam a prosperidade, então provavelmente há um problema estrutural inerente. [508] 

b) Concepção Ampla vs. Concepção Espontânea: 

Em segundo lugar, de um ponto de vista estritamente convencional, considerações diretas e totais acerca do sistema serão sempre mais eficientes e eficazes do que a geração "espontânea" através de processos cegos ao resultado final ou seu propósito. [509]

Em outras palavras, como indicado antes, um bem básico, como um carro, tem um projeto que é concebido com antecedência, antes da produção física. Assim que o desenho é concluído, em seguida, há a aplicação de materiais e processos reais para a criação do produto físico real. Isso pode parecer óbvio, para a maioria, como um processo lógico, mas a relevância de tal pré-concepção muitas vezes se perde quando se trata de contextos de ordem maior. 

Temos que nos perguntar qual seria o resultado se aplicássemos o processo pseudo-democrático de mercado, baseado em lucro a curto prazo, através de ofertas, compra e venda, caso possível em tal escala, na criação de sistemas de bens de alta integridade, como um avião, computador, carro, casa ou similares. Enquanto hoje os recursos, trabalho e sistemas sub-componentes desses itens estão certamente em jogo no livre mercado, o projeto em si não está.

O projeto é relegado, necessariamente, à disciplina de ciências em geral. Pode-se dizer que uma linha é intuitivamente delineada entre o que é suscetível à opinião monetária e o que é tangivelmente necessário para manter um nível básico de integridade técnica do sistema. (Por favor, note que esta noção de projeto não deve ser confundida com interesses "estilísticos" subjetivos. Projeto, como usado aqui, não é uma consideração estética, mas uma questão técnica.)

Imagine, hipoteticamente, se as pessoas fizessem suas "ofertas e sugestões" para o projeto físico de construção de uma casa nos seus pequenos detalhes físicos, ignorando princípios científicos. Em outras palavras, ao invés de referenciar as leis básicas da física e da ciência natural que definem a integridade estrutural nuclear de qualquer edifício, nós deixássemos o mercado decidir, com todos "comprando" e "vendendo" essas premissas em benefício pessoal, independente de conhecimento técnico. É claro que essa ideia é um verdadeiro absurdo em tal abstração e a maior parte dos leitores provavelmente não pode sequer imaginar uma dinâmica tão irracional.

No entanto, é exatamente isso que está ocorrendo, como resultado de nosso sistema econômico, em muitas outras formas menos óbvias . Por exemplo, em uma escala "macroeconômica", a rede comercial mundial criada pela globalização [510] - baseada no custo-benefício, que muitas vezes, dentre outras coisas, utiliza trabalho mais barato em regiões distantes [511], desperdiçando grandes quantidades de energia no deslocamento, de ida e volta, de recursos ao redor do mundo - revela bem esta perda de eficiência. [512]

(...)
Visão de Mundo Pós-Escassez 

Nesta seção, estatísticas básicas e tendências serão apresentadas para mostrar como podemos, como uma sociedade global, alcançar um sistema social "pós-escassez". [538] 

Enquanto a escassez em termos absolutos estará sempre com a humanidade, de uma forma ou de outra, neste sistema fechado de recursos terrestres, a escassez no nível das necessidades humanas e de sucesso material básico não é mais uma defesa viável dos métodos de alocação do sistema de mercado. [539] 

Como um breve aparte, uma defesa comum do sistema de preços e do mercado é que se existir alguma escassez, ela torna sem efeito qualquer outra abordagem. O argumento é que, uma vez que nem todos podem ter xyz, xyz é escasso e, portanto, as pessoas precisam de dinheiro (ou da falta dele) para filtrar quem ganha xyz e quem não ganha. 

O problema com essa hipótese é que ela ignora como certos recursos e, portanto, as mercadorias, têm mais relevância do que outros quando se trata de saúde pública. 

Comparar a escassez de um carro de luxo muito caro que satisfaz a necessidade de status de seu proprietário mais do que sua finalidade básica de ser um modo de transporte - com a escassez de alimentos, que é uma exigência central da vida para a saúde, não é legítimo em termos reais. O primeiro interesse, embora talvez importante para a satisfação do ego do proprietário, que provavelmente já tem suas necessidades básicas atendidas para poder pagar um produto desse tipo, não é equivalente ao segundo interesse, que corresponde àqueles que pouco ou nada têm para comer e, portanto, não podem sobreviver. Não se pode arbitrariamente confundir essas "necessidades" e "desejos", como se eles fossem simplesmente a mesma coisa, na teoria. Infelizmente, esta é a forma como o sistema de mercado se comporta. 

Da mesma forma, junto com uma grande desigualdade material e financeira [540] vem uma inevitável desestabilização social. Praticamente todas as dissidências populares e revoluções de grande escala dos últimos duzentos anos tiveram alguma base econômica, geralmente relacionada ao desequilíbrio e exploração sociais e à separação de classes.[541] E o mesmo é válido para as causas de crimes, terrorismo, vícios e outros problemas sociais. Praticamente todas estas tendências nascem da privação, seja absoluta ou relativa, e essa privação é inerente à natureza de uma sociedade baseada em competição e escassez. 

Assim, simplesmente reduzir a nossa realidade econômica ao mero comércio, alegando que algum grau de escassez justifica a utilização do mercado, dos preços e do dinheiro para realizar alocações, é ignorar a verdadeira natureza do que garante a harmonia social, a estabilidade e a saúde pública. Será que pareceria razoável ​​renunciar à capacidade técnica de, por exemplo, elevar 80% da humanidade a uma qualidade de vida, em termos materiais, atualmente mantida por apenas 10%, simplesmente porque "nem todos podem possuir uma mansão de 500 quartos"? Mais uma vez, torna-se bem claro o absurdo dessa objeção quando uma perspectiva sistêmica é adotada em relação ao que serve de base verdadeira à saúde pública e estabilidade social. 

Isto colocado, abaixo há uma lista das atuais realidades de suporte à vida disponíveis para a população mundial que não tem sido aproveitadas devido a fatores inibidores inerentes à economia de mercado. Cada ponto será tratado em uma subseção própria. 

1) Produção de alimentos: métodos atuais de produção já produzem mais comida do que o suficiente para alimentar todos os seres humanos na terra. Além disso, as tendências atuais de tecnologias e métodos agrícolas mais otimizados também mostram uma capacidade de aumentar ainda mais a eficiência da produção e a qualidade da nutrição para um estado ativo de abundância, com mínimo trabalho humano e cada vez menos necessidades de energia, água e terra. 

2) Água Limpa: atualmente existem processos de dessalinização e de descontaminação em um grau de aplicação tão vasto que nenhum ser humano, mesmo no estado atual dos níveis de poluição, precisaria estar sem água potável, independente de onde ele esteja na terra. 

3) Energia: Dentre as energias geotérmica, eólica, solar e hídrica, associadas a processos baseados em sistemas que podem recapturar a energia expelida e reutilizá-la diretamente, há uma abundância absoluta de energia, que pode prover muitas vezes as atuais necessidades da população mundial. 

4) Acesso/Produção Material: Desde edifícios e transporte até os bens comuns, o espectro de produção material tem experimentado um fusão poderosa de bens de capital, bens de consumo e trabalho humano. Com a apropriada incorporação sistêmica de cada gênero de produção, associada a processos otimizados de regeneração e com uma transformação total de um sistema de direito de propriedade para um de direito de acesso, torna-se claro que todas as funcionalidades conhecidas dos bens (na forma de produtos) podem ser utilizadas por 100% da humanidade, tendo por base as necessidades individuais e permitindo uma abundância de acesso.

Capacidade de Suporte

No entanto, antes que esses quatro temas sejam abordados em detalhe, faz-se necessária uma análise da "capacidade de suporte" da Terra. A capacidade de suporte é definida como "o número equilibrado e máximo de organismos de uma determinada espécie que podem ser sustentados indefinidamente por um determinado ambiente." [542] 

A especulação sobre a capacidade de suporte da Terra em relação aos seres humanos, ou seja, quantas pessoas a Terra e sua biosfera podem suportar, tem sido um assunto controverso por muitos séculos. Por exemplo, um relatório de 2001 das Nações Unidas disse que dois terços das estimativas que eles avaliaram naquele momento indicaram uma faixa de 4 a 16 bilhões, com uma mediana no valor de cerca de 10 bilhões de pessoas. [543] 

No entanto, a mudança tecnológica e sua capacidade de aumentar a eficiência na forma como os recursos são utilizados, [544] apresenta uma crescente interferência nessas tentativas de se obter um valor empírico tangível. A realidade é que o número de pessoas que a Terra pode suportar é altamente variável e baseado, em parte, no estado pontual da tecnologia em um determinado momento, e quanto mais a nossa compreensão científica e técnica progredir, maior a tendência do nosso planeta sustentar mais pessoas com menos energia e recursos. 

Evidentemente, isso não quer dizer que dentro de um sistema fechado como a Terra nós temos uma capacidade infinita de reprodução. Na verdade, destaca a relevância do que significa ser estratégico, inteligente e eficiente em nosso uso de recursos e, por extensão, no próprio processo industrial/econômico. 

Hoje, não há nenhuma evidência de que atingimos ou estamos perto de atingir a capacidade de suporte da Terra se levarmos em conta as tendências que revelam o nosso vasto potencial de "fazer mais com menos", aliado a um sistema de valores que reconhece claramente que nós, como espécie, ocupamos um sistema fechado da Terra, com limitações naturais totais, e que é nossa responsabilidade em relação a nós mesmos, aos outros e às futuras gerações manter um interesse em equilíbrio, eficiência e sustentabilidade. 

Este imperativo educacional sugere que uma cultura global consciente, informada, pode estabilizar sua taxa de reprodução, se necessário, sem forças externas, caso esta relação básica for bem compreendida. É claro que muito poderia ser dito sobre a influência de crenças tradicionais antigas, como as doutrinas religiosas que parecem sugerir que a procriação permanente e constante é uma virtude. Estes pontos de vista, que se originaram na ausência do conhecimento que temos hoje sobre a nossa existência compartilhada em um planeta finito, provavelmente serão superados naturalmente através da educação. [545] 

Da mesma forma, se as atuais regiões de crescimento populacional acelerado são analisadas, verifica-se que aqueles vivendo na privação e pobreza se reproduzem mais rapidamente do que aqueles fora dessas condições. Embora haja controvérsias a respeito do porquê da prevalência desses padrões, a correlação parece ser precisa. Esta evidência sugere que a elevação do nível de vida das pessoas pode reduzir suas taxas reprodutivas, o que estimula o imperativo social de criar um sistema de alocação de recursos mais justo.


No caso da água: 

(2) Água Limpa

Dado que o corpo humano só pode sobreviver alguns dias sem água potável, [583], tornar este recurso essencial disponível, em abundância, para todos, é fundamental. Da mesma forma, ele é a espinha dorsal de muitos métodos de produção industrial, incluindo a própria agricultura. A água doce é, naturalmente, a água que existe na superfície da Terra, em camadas de gelo, calotas polares, geleiras, icebergs, pântanos, lagoas, lagos, rios e riachos, e no subsolo como água subterrânea em aquíferos e rios subterrâneos. De toda a água na Terra, 97% é salgada e não diretamente consumível.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde: "Cerca de 2,6 bilhões de pessoas - metade do mundo em desenvolvimento - não têm nem mesmo uma "aperfeiçoada" latrina simples e 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a qualquer tipo de fonte aperfeiçoada para beber água. Como conseqüência direta: 

- 1,6 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a doenças diarreicas (incluindo a cólera) atribuíveis à falta de acesso à água potável e ao saneamento básico. E 90% delas são crianças com menos de cinco anos, a maioria em países em desenvolvimento;

- 160 milhões de pessoas estão infectadas com esquistossomose causando dezenas de milhares de mortes por ano. 500 milhões de pessoas estão com risco de ter tracoma, das quais 146 milhões estão ameaçadas pela cegueira e 6.000.000 são deficientes visuais;

- Helmintos intestinais (ascaridíase, tricuríase e ancilostomíase) estão assolando o mundo em desenvolvimento, devido à insuficiente de água potável, saneamento e higiene, com 133 milhões sofrendo de infecções intestinais de alta intensidade por helmintos; existem cerca de 1,5 milhões de casos de hepatite A clínica, a cada ano ". [584]

De acordo com as Nações Unidas, em 2025, cerca de 1,8 bilhões de pessoas viverão em áreas assoladas pela escassez de água, com dois terços da população mundial vivendo em regiões com problemas de água. [585] Tal como acontece com a maioria de todos os problemas dos recursos atuais do mundo, é uma questão de ambas: pobre gestão e falta de aplicação industrial. Do ponto de vista da gestão, a quantidade de água desperdiçada no mundo, devido à poluição, uso excessivo e infra-estrutura ineficiente, é enorme. Cerca de 95% de toda a água que entra na maioria das casas das pessoas vai embora, pelo ralo, em um instante. [586] 

Uma solução sistêmica para otimizar este uso é projetar cozinhas e banheiros para que eles recapturem água para diferentes fins. Por exemplo, a água que atravessa uma pia ou chuveiro pode ser disponibilizada para um banheiro. Várias empresas têm, lentamente, colocado essas idéias em prática recentemente, mas, em geral, a maioria das infra-estruturas não fazem nada do tipo, tanto quanto não usam sistemas de reutilização. O mesmo é verdadeiro para grandes edifícios comerciais, que podem criar redes de reutilização em toda a estrutura, juntamente com a captura de água da chuva para outros fins, etc 

A poluição da água é outro problema, o qual afeta tanto os países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, em vários níveis. A Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) estima que 850 bilhões de litros de esgotos não tratados (resíduos) fluem para corpos de água, por ano, contribuindo para mais de 7 milhões de doenças a cada ano. [587] O Centro do Terceiro Mundo para Gestão da Água estima que apenas cerca de 10 a 12 por cento das águas residuais, na América Latina, são tratados adequadamente. A Cidade do México, por exemplo, "exporta" suas águas residuais não tratadas para os agricultores locais. 

Enquanto os agricultores valorizam isso porque a água aumenta a produtividade das culturas, as águas residuais são altamente contaminadas com patógenos e produtos químicos tóxicos, o que representa um sério risco à saúde, tanto para os agricultores quanto para os consumidores dos produtos agrícolas cultivados nessa área. Na Índia, as principais cidades descarregam as águas residuais, sem tratamento, nos corpos de água que servem como fonte de sua água potável. Delhi, por exemplo, descarrega suas águas residuais diretamente no Rio Yamuna - a fonte de água potável para cerca de 57 milhões de pessoas. [588] 

As soluções para este problema, em parte, devem abordar a questão da grande ineficiência, provavelmente impulsionada pelas limitações monetárias da maior parte dos governos, para instituir sistemas de esgotos adequados, juntamente com um design industrial imperativo para incluir técnicas de sistema de reuso, para melhor preservar e utilizar nossos recursos existentes. 

Isso ao lado, da mais notável e ampla solução, para compensar esses problemas emergentes, a fim de facilitar não só um alívio dos problemas de água atuais, que afetam mais de 2 bilhões de pessoas, mas também para transcender para uma condição de relativa abundância de água fresca, para todos os seres humanos, que é utilizar modernos sistemas para (a) purificação e (b) dessalinização, em ambas as escalas, macro e micro-industriais. 

(A) Purificação: 

Avanços na purificação de água vem se acelerando, rapidamente, com muitas variações tecnológicas da abordagem. Talvez um dos mais eficientes hoje seja o que é chamado de "desinfecção ultravioleta (UV)". Este processo é altamente escalável, tem baixo consumo de energia e funciona rapidamente. 

Segundo o engenheiro Ashok Gadgil, inventor de sistemas UV portáteis, "Em termos de uso de energia, 60 watts de energia elétrica - o que é comparável à energia utilizada em uma lâmpada de mesa comum - é suficiente para desinfetar a água, a uma taxa de uma tonelada por hora, ou quinze litros por minuto ...Esta quantidade de água é suficiente para satisfazer as necessidades de água potável de uma comunidade de 2.000 pessoas". [589] Este dispositivo Gadgil desenvolvido para áreas pobres rurais, pode ser operado através de painéis solares, pesa apenas 15 quilos e não tem descarga tóxica. 

Claro, não há bala de prata. Enquanto a desinfecção UV funciona muito bem para bactérias e vírus, é menos eficaz para outros tipos de poluição, tais como sólidos suspensos, turbidez, cor ou matéria orgânica solúvel. [590] Em aplicações em larga escala, UV é muitas vezes combinado com tratamentos mais convencionais, como o cloro, como é o caso com a maior fábrica de desinfecção UV de água potável do mundo, em Nova York, que pode tratar 2,2 bilhões de galões americanos (8,3 milhões de metros cúbicos), por dia . [591] Isto é 3.029.500.000 [mais de 3 bilhões] de metros cúbicos, por ano. 

A pessoa média, nos Estados Unidos, usa 2.842 metros cúbicos, por ano. [592] Isso inclui a água doce utilizada para fins industriais, não apenas para o consumo direto (beber) . A média mundial é de 1.385 metros cúbicos, por ano. [593] China, Índia e Estados Unidos são atualmente os maiores usuários de água doce do mundo e a maioria desta água é utilizada na produção, principalmente na agricultura. [594] Na verdade, cerca de 70% de toda a água doce é utilizada na agricultura, globalmente. [595] 

Por uma questão de argumento de estatística pura, ignorando as revisões altamente necessários em relação ao uso estratégico da água, sistemas de reutilização e possibilidades de conservação através de aplicações industriais mais avançadas e eficientes, vamos avaliar a simples questão do que seria necessário para desinfetar (assumindo que fosse necessário) toda a água doce sendo usada atualmente no mundo, em média, por toda a população, em todos os contextos. Dada a média mundial de 1.385 metros cúbicos e uma população de 7,2 bilhões, chegamos a um consumo anual total de 9.972.000 milhões de metros cúbicos. 

Usando a capacidade de produção da planta UV de Nova York, de cerca de 3 bilhões de metros cúbicos, por ano, como uma base, por instalação, de uma usina desse tipo, descobrimos que 3.327 plantas seriam necessárias globalmente. [596] A planta de Nova York é de cerca de 3,7 hectares (160k de pés quadrados). [597] Isso significa que cerca de 12.309 hectares de terra são necessários, em teoria, a fim de instalar um processo de purificação de toda a água doce atualmente utilizada, globalmente, pela população. 

Claro, escusado será dizer, há muitos outros fatores "pegada" que entram em jogo, tais como as necessidades de energia, juntamente com a importância crítica de localização. 
No entanto, vamos colocar isso em uma comparação maior, mais reflexiva. O exército dos Estados Unidos, sozinho, com seus cerca de 845.441 edifícios e bases militares, ocupa cerca de 30 milhões de hectares de terra em todo o mundo. [598] Apenas 0,04% desta terra seria necessária para desinfetar o total de água fresca em uso, de todo o mundo, se fosse mesmo necessária esta escala, o que não é. 

(B) Dessalinização 

A possibilidade realista, de massiva purificação global de água doce poluída, colocada de lado, provavelmente o meio mais poderoso para assegurar água potável utilizável, é converter diretamente de uma fonte salina, ou seja, do oceano. Com um planeta composto principalmente de água salgada, esta técnica, se feita corretamente, garante, sozinha, abundância global. 

O método mais comum de dessalinização utilizado hoje em dia é o de osmose reversa, um processo que remove as moléculas de água a partir da água salgada, deixando íons de sal, em um subproduto de salmoura residual . De acordo com a Associação Internacional de Dessalinização: "Atualmente, a osmose reversa (RO) ... responde por cerca de 60 por cento da capacidade instalada, seguido pelos processos térmicos de flash em vários estágios (MSF), com 26 por cento e de multi-efeito de destilação (MED), com 8,2 por cento. " [599] Em 2011, havia cerca de 16.000 estações de dessalinização, em todo o mundo, e a capacidade mundial total de todas as plantas on-line (ou seja, em operação) era de 66,5 milhões de metros cúbicos por dia, ou cerca de 17,6 bilhões de galões americanos por dia. [600] 

Como em tudo que é tecnológico, muitos métodos em desenvolvimento, atualmente considerados "experimentais", sugerem um aumento poderoso em termos de eficiência conforme as tendências se desenvolvam. Um dos métodos chamado dessalinização capacitiva (CD), também conhecido como desionização capacitiva (CDI), tem mostrado uma operação com maior eficiência de energia, pressões mais baixas, não há componentes de membrana e não produz uma descarga de resíduos, como as práticas convencionais. Ele também pode ser facilmente escalado simplesmente aumentando o número de eléctrodos de fluxo no sistema. [601] 

No geral, se examinarmos os métodos existentes, juntamente com métodos emergentes, vemos uma tendência geral de aumento da eficiência na conservação e desempenho de energia. [602] Isto brevemente mencionado, o foco desta extrapolação para uma utilização "pós-escassez" de dessalinização irá considerar somente métodos atuais, comprovados, em uso, nomeadamente o sistema de osmose reversa.

A Usina Wonthaggi de Dessalinização é uma planta avançada de dessalinização, por osmose reversa, de água do mar, na Costa Baixa, perto de Wonthaggi, ao sul de Victoria, na Austrália. Foi concluída em Dezembro de 2012. Ela pode produzir, de forma conservadora, cerca de 410 mil metros cúbicos de água dessalinizada, por dia (150 milhões de metros cúbicos, por ano), [603] ocupando cerca de 20 hectares (cerca de 50 acres de terra). [604] Dado que, como observado anteriormente, o uso total de água, anual do mundo de hoje é de cerca de 9 trilhões, 972,000 milhões de metros cúbicos, isto significa que seriam necessárias 60.000 plantas [605] para processar todo o uso de água potável. Mais uma vez, esta extrapolação extrema é para construir um argumento relativo, uma vez que não precisamos dessalinizar tanta água na realidade. 

No entanto, supondo que necessitássemos dessalinizar a água do mar constantemente para corresponder ao uso global atual, 3 milhões de hectares de terras seriam necessários, no total. A Terra tem cerca de 217.490 [606] quilômetros de litoral, o que significa, utilizando livremente o modelo Wonthaggi, de cerca de 20 hectares (cerca de 50 acres) com 100 metros por hectare (ou 328 pés), assumindo a construção sendo de quatro hectares de profundidade e cinco hectares de comprimento, paralelo à costa, a planta iria ocupar 1.640 pés ao longo da costa. Isso significa que, assumindo 60.000 plantas da mesma dimensão, seriam necessários 98.400 mil pés ou 18.636 milhas de costa (8,5% do litoral do mundo). 

Claro, isso é uma grande quantidade de litoral e naturalmente muitos outros fatores entram em jogo quando se escolhe um local apropriado para tal planta. Mais uma vez, não é propósito deste extrapolação sugerir que estas estatísticas tenham qualquer outro uso além de medir, em um amplo senso, o que tais capacidades significam, tendo em conta as questões de escassez / estresse de água, que ocorrem hoje. No entanto, o fato é que ele está, claramente, dentro do alcance de aplicação para atender as necessidades das pessoas que sofrem de escassez de água, através da dessalinização, sozinha, juntamente com um sistema de infra-estrutura e distribuição para mover águas para o interior. 

Como exemplo final, vamos reduzir essa extrapolação abstrata mais ainda e aplicá-la a uma circunstância da vida real. No continente da África, por exemplo, que tem cerca de 1 bilhão de pessoas, a partir de 2013, [607] cerca de 345 milhões de pessoas não têm acesso suficiente à água potável. [608] Se aplicarmos a taxa média global observada de consumo, de 1.385 metros cúbicos, por ano, visando proporcionar a cada um dos 345 milhões de pessoas esta quantidade, precisaríamos de 477.825 milhões de metros cúbicos produzidos anualmente.

Usando a capacidade anual de Wonthaggi, de 150 milhões de metros cúbicos produzidos, como base, a África precisaria de 3185 plantas de 50 hectares, ao longo da sua linha de costa, para atender tal demanda, tendo cerca de 25.158 milhas (de costa na África) 5.223.400 pés ou 989 milhas. O que ocuparia apenas 3,9% da costa da África. [609]

No entanto, se dividirmos esse número pela metade, e usando sistemas de purificação de UV para uma parte e dessalinização para a outra, o processo de dessalinização necessitaria cerca de 1,9%, ou 494 milhas de costa para as instalações de dessalinização e apenas cerca de 296 hectares de terra para as instalações de purificação, o que é uma fração minúscula do total de massa de terra, da África (de cerca de 7 bilhões de acres). Isto é altamente factível e, obviamente, neste caso e em todos os casos, nós maximizaríamos, estrategicamente, processos de purificação, uma vez que é mais eficiente, enquanto usaríamos a dessalinização para a demanda restante. 



Tais estatísticas brutas revelam que entre UV e descontaminação tradicional, juntamente com os processos de dessalinização tradicional, tal como existem atualmente, mesmo ignorando os avanços rápidos que ocorrem em ambos os campos [610], que provavelmente vão ter um nível de avanço de eficiência, exponencialmente, nas próximas décadas, a ideia de permanente escassez de água no planeta Terra é um absurdo. Ambas estas extrapolações isoladas assumiram que apenas uma ou a outra foi aplicada, apenas na forma de grande escala, assumindo que não há outras fontes existentes de água potável. 

Na realidade, tendo em conta o atual nível de água doce ainda disponível, juntamente com uma simples e inteligente re-ordenação, de esquemas de rede de água para uso e reutilização, para preservar ainda mais a capacidade existente, associados com os processos tanto de dessalinização em pequena e larga escala, quanto descontaminação, conforme as regiões exigirem (muitos dos quais podem ser alimentados por processos de energias renováveis, que estão avançando rapidamente ​​também), nós temos a capacidade técnica para criar disponibilidade de água potável para a absoluta abundância global.


O texto acima foi extraído do seguinte capítulo, em revisão para publicação no site:

Ensaio 13: Tendências Pós-Escassez , Capacidades e Eficiências 

Diagnósticos e soluções propostas no livro:

O MOVIMENTO ZEITGEIST-UMA NOVA FORMA DE PENSAR
A tradução (colaborativa) dos capítulos 1 a 11 está disponível no site (estamos trabalhando nos demais capítulos  - se desejar ajudar na tradução / revisão, veja como no link):



Ver também:

Demonstração de como a EFICIÊNCIA DE MERCADO inibe e, muitas vezes, impede a EFICIÊNCIA TÉCNICA (respeito às Leis Naturais para atender as Necessidades Humanas)



domingo, 18 de janeiro de 2015

FUTURO: Como o enxergo - Vamos abandonar os limites de analise de possibilidades da dicotomia estéril: Economia de Mercado ('Capitalismo') vs. Economia de Planejamento Central ('Comunismo' / 'Socialismo')?


Veja como pode funcionar, sem a 'Vanguarda do Proletariado' controlando tudo (não deu e nunca daria certo - só se substitui a corrupção do Mercado pela corrupção dos Planejadores).

Superação da Economia de Mercado por um Modelo baseado em:

-- Cooperação Global, via WEB, para efetuar, de forma iterativa:
  • Design (CoCriação) 
  • Identificação de Demanda (Em função do Nível de Interesse na CoCriação de Produtos e Serviços) 
  • Planejamento de Produtos, Processos e Recursos 
  • Produção 
  • Acesso Compartilhado (não Aquisição) 
  • Reutilização de Produtos e seus Componentes
-- Utilização máxima de Automação, substituindo papéis de trabalho normalmente feitos pelos seres humanos, eliminando a necessidade de esforços humanos (físicos ou mentais), liberando pessoas do sofrimento em ocupações monótonas, irrelevantes ou perigosas que tem se tornado cada vez menos necessárias. Para isso temos que nos livrar da obsessão social do "trabalho-por-renda"

Cabe ressaltar que a implantação de um tal modelo se daria de 'baixo para cima' (como identifico que já está ocorrendo) por <adesão consciente> e não por <lei ou revolução>. Por exemplo: ninguém seria obrigado a compartilhar bicicletas, carros, residências. Poderia continuar a ter o seu (embora isso esteja se tornando muito mais oneroso que utilizar de modo compartilhado). Não se advoga a abolição da propriedade. Mas a sua gradual substituição pelo acesso, por comodidade e consciência de sustentabilidade (não apenas ecológica).

O exposto acima é uma das possibilidades para implantação do Modelo Econômico Baseado em Recursos e Lei Natural - proposto em:

Associei os seguintes pontos, ao exposto acima:
Como imagino o futuro:
-----------------------------

> Valorização de Autonomia, Responsabilidade e Solidariedade.


Pois só assim teremos PESSOAS capazes de exercitar a VERDADEIRA DEMOCRACIA:

-- Com AUTONOMIA se conquista a Liberdade (que não pode ser doada a ninguém)

-- Com RESPONSABILIDADE se constrói a Igualdade (somente Seres Humanos Responsáveis podem se respeitar e respeitar a diversidade de agir, pensar, sentir e ser).

-- A SOLIDARIEDADE é a expressão, no dia a dia, da Fraternidade que nos permite viver em Sociedade como IRMÃOS. E não como lobos, nos devorando e destruindo, em jogos competitivos.

> Aprendizado baseado em interesses dos Aprendizes, com apoio de:

-- Mentores / Tutores, 
-- Recursos Educacionais Abertos (Open-Source), 
-- Em Ambientes Suportados por TIC ou 
-- Eventos Presenciais auto organizados por interesses compartilhados ou projetos de pesquisa comuns


> Democracia Direta, com pessoas propondo, debatendo e votando em Projetos, não em Representantes, via WEB, Telecentros e Urnas Eletrônicas (com sistemas de Código Aberto (Open Source) para melhoria contínua e possibilidade de validação e prevenção de fraudes por qualquer interessado - o que é diferente do possibilitado nos Sistemas Proprietários das atuais Urnas Eletrônicas)


Em minha visão de futuro exposta na descrição da seguinte imagem:
(Fonte da imagem: Ecopolos / Ecocidades => http://aliancaluz.wix.com/lightalliance -  
[PROJETO PRIMEIRO ECOPOLO ALIANÇA LUZ => https://www.facebook.com/groups/ecopoloequilibrium/])

No seguinte evento:

FUTURO: Como você o enxerga?
Evento criado para compartilharmos nossas Visões de como acreditamos que o Futuro será. 


Sugiro incluir uma imagem, com sua Visão de Futuro na descrição. [Exemplo: minha imagem - em 10/12/2014 21:40]



Com isso sua contribuição estará 'ancorada' permitindo comentários associados a sua imagem. Assim cada futuro projetado se tornará uma conversa através dos comentários adicionados a sua imagem associada.



Construiremos soluções reais (com base em diagnósticos reais) ou continuaremos "comprando" os ineficientes 'produtos de segurança' "vendidos" por Interesses de Mercado ou Políticos?


Violência: Brasil mata 82 jovens por dia


O Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas.Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.
Mais absurdo que estes números, só a indiferença.
A morte não pode ser o destino de tantos jovens, especialmente quando falamos de jovens negros. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas.
O destino de todos os jovens é viver.
Você se importa?

Eu me importo !
Quero que as autoridades brasileiras assegurem aos jovens negros seu direito a uma vida livre de preconceito e de violência. E priorizem políticas públicas integradas de segurança pública, educação, cultura, trabalho, mobilidade urbana, entre outras.
Eu quero ver os jovens vivos!
Chega de homicídios!

Se você também se importa, conheça esta petição:

Queremos ver os jovens vivos!


Mais informações:

CartaCapital conversou com o diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil sobre a campanha “Jovem Negro Vivo”, cujo objetivo é sensibilizar a sociedade para o tema da violência direcionada aos jovens, em especial negros, no Brasil.
CartaCapital: 
O Mapa da Violência de 2014 da Unesco mostra que há uma queda de 32,3% no número de homicídios de jovens brancos, enquanto o percentual de homicídios de jovens negros cresceu na mesma proporção, com um aumento de 32,4%. 
O que isso indica?
Anistia Internacional provoca: quem deseja mundo melhor, não pode furtar-se ao tema. Porque violência é manipulada pelas elites, mas inferniza as maiorias.
Átila Roque, entrevistado por Marcelo Pellegrini, em Carta Capital
Matou-se mais no Brasil do que nas doze maiores zonas de guerra do mundo. Os dados são da Anistia Internacional no Brasil e levam em conta o período entre 2004 e 2007, quando 192 mil brasileiros foram mortos, contra 170 mil espalhados em países como Iraque, Sudão e Afeganistão.
Os números surpreendem e são um reflexo de uma “cultura de violência marcada pelo desejo de vingar a sociedade”, conta Átila Roque, diretor-executivo da base brasileira da Anistia Internacional. De acordo com os últimos levantamentos feitos pelo grupo, 56 mil pessoas foram assassinadas em solo brasileiro em 2012, sendo 30 mil jovens e, entre eles, 77% negros.
Esses índices, segundo ele, são resultado de uma política de criminalização da pobreza e de uma indiferença da sociedade em torno de um “genocídio silenciado” que muitas vezes fica impune. “Entre 5 e 8% dos homicídios no Brasil chegam a virar processo criminal. Então, na verdade, matar no Brasil virou um crime quase que impune”, afirma Roque. “Ou seja, processos sobre os homicídios também são seletivos.”
Do outro lado desse processo, o racismo introjetado nos profissionais de segurança pública explica a alta mortandade da população negra. Para Roque, esses policiais são vítimas do mesmo preconceito que reproduzem. “Essa sociedade que constrói uma visão estereotipada sobre sua população, em particular a jovem negra de periferia, vê o policial como parte desses cidadãos de segunda classe”, argumenta.
Sociedade

Homicídios

Violência: Brasil mata 82 jovens por dia

Eles foram vítimas de 30 mil assassinatos em 2012; do total de mortes, 77% eram negros, o que denuncia um genocídio silenciado de jovens negros, afirma Atila Roque, da Anistia Internacional
por Marcelo Pellegrini — publicado 04/12/2014 19:32, última modificação 04/12/2014 20:56


Para uma Abordagem Sistêmica do assunto ver:

7. DEFININDO SAÚDE PÚBLICA

"Somos todos responsáveis ​​por todos."[109]
- Dostoyevsky -

VISÃO GERAL

Qual é a verdadeira medida de sucesso para uma sociedade? O que é que nos faz felizes, saudáveis, estáveis e equilibrados com o mundo ao nosso redor? Não seria o nosso sucesso simplesmente a nossa habilidade de entendermos e nos adaptarmos às realidades do nosso mundo para conseguirmos os melhores resultados possíveis em qualquer circunstância? E se descobríssemos que a própria natureza do nosso sistema social estaria, na verdade, reduzindo a nossa qualidade de vida no longo prazo?

Os vendedores de doenças - As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros, espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa "síndrome" que exige tratamento



Os vendedores de doenças - 16/6/2006

As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros, espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa "síndrome" que exige tratamento.

Ray Moynihan, Alain Wasmes

Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando, preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley's - fabricante e distribuidor de gomas de mascar -, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de "vender para todo mundo". Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.


As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais, pessoas transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença - mudando assim literalmente o que significa ser humano.


Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.

A fabricação das "síndromes"

A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis, preocupadas com a saúde, em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndromes graves, de tal modo que a timidez torna-se um "problema de ansiedade social", e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada "problema disfórico pré-menstrual". O simples fato de ser um sujeito "predisposto" a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.

O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais farmacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos - e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado "A arte de catalogar um estado de saúde", Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para "favorecer a criação" dos problemas médicos [1]. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova "disfunção". Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual - uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.

Médicos orientados por marqueteiros
Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.

Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para "criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde". O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, "de uma nova maneira de pensar nessas coisas". O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de "criar mercados de novas doenças" traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser "convencidas" de que "problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição" são "dignos de uma intervenção médica". Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: "Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa".

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o "normal" do "anormal" são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado "hipertensão arterial"; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.

Quanto mais alienados, mais consumistas
A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.


As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no cérebro.


O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.

A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.

O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de "pacientes". Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.

A "medicalização" interesseira da vida
A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a "toda e qualquer pessoa do mundo". O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.

Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich* deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão do establishment médico estava prestes a "medicalizar" a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, "que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias [2] ".

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou "a venda de doenças": ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos [3]. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidam as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.

Demonstração de como a EFICIÊNCIA DE MERCADO inibe e, muitas vezes, impede a EFICIÊNCIA TÉCNICA (respeito às Leis Naturais para atender as Necessidades Humanas)
LER AQUI:
A saúde em Illich e Foucault  (Evento Facebook)

(Tradução: Wanda Caldeira Brant) wbrant@globo.com

*Autor recomendado pelo IPETRANS: Ivan Illich, com a Nêmesis da Medicina, on-line. http://www.ivanillich.org/Principal.htm 

Mais autores recomendados:http://www.ipetrans.hpg.ig.com.br/IPETRANS-166.htm
* Philippe Pignarre, "O que é o medicamento?", Ed. 34,1999. 

Bibliografia complementar:
* A revista médica PLoS Medecine traz, em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre "A produção de doenças" -http://medicine.plosjournals.org/ 

* Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças. 

*Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manouvres et manipulations de l'industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005. 

* Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Littérature, col. Pluriel, 2003.

[1] Ler, de Vince Parry, "The art of branding a condition ", Medical Marketing & Media, Londres, maio de 2003. 

[2] *Ler, de Ivan Illich, Némésis médicale, Paris, Seuil, 1975. 

[3] Ler, de Lynn Payer, Disease-Mongers: How Doctors, Drug Companies, and Insurers are Making You Feel Sick, Nova York, John Wiley & Sons, 2002. matéria do Le Monde Diplomatique-Brasil, in EcoDebate.com.br